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Sweet Stuff

Neste blog fala-se sobre livros, escrita criativa, ballet para adultos e muito mais.

Antes fugir que remediar

Já não há nada aqui que desconheça. Nenhuma descoberta que me possa espantar e nenhum local escondido que mereça a minha visita.

 

Enquanto dou uma última volta à casa agacho-me ao pé da porta e pego no quadrado que se encontra a alguns centímetros do meu pé esquerdo.

E sim, é verdade que ficaste bem na fotografia.

 

Mas não passa disso, um bocado de papel. Um quadrado velho, coberto de pó, que ficou caído no chão da sala.

 

Encontrei um pedaço de ti enquanto dizia adeus a um sítio que já não me traz nada de novo.

 

E podemos culpar o carteiro por não saber entregar a correspondência, a chuva por não ser apropriada e a minha mãe que nunca gostou muito de ti.

 

Mas isso é o que eles fazem, atribuir culpas. E nós não somos como os outros pois não? Como o resto do Mundo. É que tu fizeste-me sentir que o Mundo se resumia à química das nossas almas, baloiçando lado a lado como duas crianças num parque infantil. Paralelos, nunca chocámos, mas impulsionámos o baloiço repetidamente. Para trás, para a frente. Até quebrar a corrente.

 

Chama-me cobarde mas já não há nada aqui que desconheça. E tu sabes que o que nos mata sempre é aquele toque de familiaridade, é aquela foto perdida no meio da sala.

 

Antes partir do que ficar.

 

Já não há corrente que segure o baloiço e nós nem demos a vez a ninguém. Já viste como fomos egoístas?

E já não há nada aqui que me faça suspirar e verter uma lágrima quente, como a avó fazia ao rever o velho álbum.

 

O que há é essa foto.

 

Essa estúpida e ridícula foto, que agora acredito que tenhas deitado ao chão propositadamente. Nem ela me faz ter saudades. Nem essa polaroid me fará ter saudades deste lugar e dos vizinhos que nunca chegámos a ter.

 

O que me dá é este impulso de partir. Tens razão e fere-me o orgulho admiti-lo, apetece-me fugir.

 

Para quê tentar soldar uma corrente que em breve ficará gasta novamente? Tu bem sabes que os velhos hábitos custam a morrer e esta é a nossa droga, o nosso vício. Chama-me corajosa por não permitir uma overdose de ataques mútuos.

E passo os dedos pela borda branca deste quadrado, quinze por quinze, antes de o rasgar. Suspiro.

 

Antes partir do que ficar.

Mais vale fugir que remediar.

 

*Eis outro texto que fiz para o campeonato de escrita criativa. O que acharam? :)*

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SOBRE MIM

Sonhadora a tempo inteiro & blogger em part-time. Adora livros, antiguidades e flores na cabeça. Escreve textos pseudo-românticos quando está para aí virada. É fã de dançar ballet na cozinha e cantar no chuveiro. O seu pé direito insiste em ser torto e não há como o emendar. Nunca diz que não a uma chávena de chá.
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