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Sweet Stuff

Neste blog fala-se sobre livros, viagens, ballet e muito mais.

Sex | 29.06.18

a pressão de ser jovem & a desgraça de envelhecer

 

Saramago disse tudo na célebre frase: "Não tenhas pressa, mas não percas tempo." É uma das minhas citações preferidas de sempre, porque resume a minha opinião em relação às pressões que nos são impostas (pelos outros, ou por nós próprios)  em termos de conquistas, sucesso e to-do lists cheias de certinhos que devemos cumprir ao longo da vida. 

 

Creio que todas as gerações sofreram a agonizante pressão de ser jovem. Quando falamos do panorama político "os jovens é que têm de mudar isto" e "têm um grande trabalho à vossa frente" são frases que se repetem. Não querendo descurar a importância da responsabilidade social (que é de todos) às vezes o peso do mundo sobre os ombros dos mais novos é assim um 'cadinho avassalador. 

 

Talvez seja por eu pópria frequentemente me auto-sabotar e ser estupidamente perfecionista em tudo aquilo que leva a minha assinatura por baixo, maaaas este argumento de - és jovem, logo activo, portanto vai lá mudar o mundo enquanto eu fico sentado a assistir - está um pouco por todo o lado.

 

A nível profissional é suposto sermos deuses. Temos acesso à tecnologia que outrora não existia (mais cinco pó Linkedin), temos acesso a ensino superior, temos pequenos computadores enfiados nos bolsos, então como é que já não somos o novo CEO da Apple? Hã? Hã? Tamos a falhar...

 

É também na juventude que sentimos a pressão de fazer. Fazer por fazer. Fazer porque os outros fazem. Fazer porque "já és um adulto", parece que não há pausas, não há recreio para o lanche, é sempre o agora, ou nunca como se tudo fosse uma decisão de vida, ou de morte. Demorei muito tempo (e dei muita pancada na parede) para perceber que não é por ter uma determinada idade que devo fazer isto, ou aquilo. É claro que há coisas que podem ser mais fáceis de concretizar quando não temos tantas responsabilidades, ou encargos, mas daí a passarem a obrigação vai um grande passo.

 

Além disso, esta ânsia para fazer o máximo e ser o melhor na juventude, parte do pressuposto de que a tua vida acaba, (ou piora consideravelmente) após um certo número. Está enraízada no preconceito de que é uma desgraça envelhecer. Utilizamos velho como um insulto. Julgamos outra pessoa, por algo que ela não consegue controlar e quando confrontados com casos de indivíduos que escolhem tentar fintar a partida do tempo com recurso a cirurgias, julgamos também porque, afinal de contas, "isso não é natural".

 

No fim de contas, volto sempre a Saramago (ironicamente, um homem que só ficou famoso pela sua escrita quando já era "velho"). É não ter pressa de fazer sem propósito, de se comparar aos outros que já têm bestsellers e x dinheiro na conta, mas sim seguir os nossos sonhos e aquilo que faz de nós quem somos - sem nunca perder tempo.